Do corpo, a plenitude. Do corpo à plenitude.
resumo do texto de Tales Nunes, com pequenas adaptações por Daniela Freitas
O corpo físico, a parte mais densa do nosso ser, para muitas pessoas, é ainda algo distante e desconhecido. Geralmente essas pessoas lembram do corpo apenas quando estão com algum desconforto físico ou quando são acometidas por alguma doença. E, imaginemos, se a parte mais densa do nosso ser pode ser de tal maneira negligenciada, o que dizer, então, do que temos de mais sutil, como a energia e os processos mentais e emocionais?
Nesse sentido, a prática de Hatha Yoga serve-nos como um mapa de nós mesmos, o qual nos dá recursos para, pouco a pouco, nos conhecermos mais profundamente. Esse é um processo que é, inicialmente, mais perceptível no nosso corpo denso e se torna mais sutil à medida que apuramos a nossa sensibilidade e a nossa consciência.
Através da prática podemos ter um aprofundamento da consciência nos nossos cinco corpos: corpo físico (annamayakosha), corpo de energia (pranamayakosha), corpo mental e emocional (manomayakosa), corpo de inteligência (vijñanamayakosha) e corpo de bem-aventurança (anandamaykosha).
A prática de ásanas faz com que, num processo de constante auto-observação e tomada de consciência do que acontece no seu corpo físico (annamayakosha), de maneira experiencial, você aprenda como ele funciona. A partir daí, vem o conhecimento dos nossos limites e bloqueios: do que devemos e podemos fazer com ele ou não, das nossas melhores escolhas alimentares, do que nos faz bem e do que não nos faz bem.
Ao mesmo tempo, os ásanas levam o praticante a perceber melhor o seu corpo de energia (pranamayakosha) e o seu corpo mental e emocional (manomayakosha). O yogi coloca o corpo físico em posições totalmente novas e desafiadoras, as quais fazem com que a energia circule de maneira diferente no corpo e, conseqüentemente, trazem à mente e ao coração pensamentos e emoções específicas. Dentro disso tudo, ele assume o papel, ao mesmo tempo, de cientista e de cobaia no laboratório. Coloca-se em experiência e observa o resultado. A diferença entre o observador yogue e o cientista, porém, é que o primeiro observa sem julgamentos ou classificações, mantendo uma atitude de passividade, na posição da consciência testemunha.
A partir desse ponto, passamos aos pranayamas. O praticante, através da respiração, induz a energia a percorrer caminhos novos. É, nesse momento, que os nossos bloqueios energéticos ficam mais evidentes e nos deparamos com medo, ansiedade e emoções contidas que vêm à tona. Por esse motivo, muitas pessoas têm uma incrível resistência à prática de pranayamas. Essas emoções, medos e ansiedades (vrittis) fazem parte do nosso ser e vêm à tona em momentos específicos das nossas vidas; mas nós não percebemos ao certo de onde e quando elas realmente surgem e somos levados por elas e agimos movidos por elas, condicionados.
Lembra da ignorância que certas pessoas têm com relação ao seu corpo físico? O mesmo acontece com relação às emoções, medos e ansiedades. Muitas vezes, nas nossas vidas, tudo está bem exteriormente, mas, internamente, existe uma ansiedade que não sabemos de onde vem. A vantagem de nos expormos a essas sensações durante a prática de Yoga é que nos propomos a fazer isso conscientes de que devemos apenas observar e assimilar. Dessa maneira, ampliamos a nossa consciência até nosso corpo de inteligência (vijñanamayakosha), cultivando e desenvolvendo o discernimento. É o discernimento que nos dá o alerta, quando esses vrittis (emoções, medos, ansiedades) surgem em situações cotidianas, e a consciência de que agir movido por eles só me traz mais sofrimento e me mantém num ciclo vicioso de ação e reação automáticas; é o discernimento que nos dá a possibilidade de quebrar os nossos condicionamentos e transformar radicalmente nossos hábitos.
Na meditação, tomamos o nosso assento (ásana) com a coluna ereta, firme e confortável. Tudo o que fizemos até então trouxe-nos a essa posição. E é, nessa posição, que à medida que deixamos de nos identificar com nossos pensamentos, tomamos contato com o nosso corpo mais sutil, anandamayakosha, e temos lampejos de ananda, plenitude.
Ananda, essa felicidade que não depende de fatores externos e que faz parte do nosso ser, reside no coração, mas está obscurecida por alguns véus, pela nossa identificação cega com pensamentos, emoções, ego. A meditação é um dos meios pelo qual descortinamos a felicidade suprema, que reside no coração, e aprendemos a nos reconhecer como tal, mesmo que tenhamos sentido essa plenitude por meio de lampejos, como experiências ocasionais, uma vez que elas normalmente vêm e vai. Com a prática do yoga, esperamos que, aos poucos, esses lampêjos se tornem mais duradouros, e possamos nos reconhecer como pletinitude o tempo todo.
Sendo assim, começando pelo nosso corpo físico, o Hatha Yoga nos leva ao nosso corpo mais sutil. Do mais básico dos ásanas, ao mais complexo pranayama ou meditação, é importante lembrar que o Yoga tem a finalidade de auto-realização, ou seja, fazer-nos reconhecer que somos seres plenos.
Postado por: Prof. Daniela Freitas